Primeiros Socorros no Dia a Dia
O que fazer e o que evitar em situações de emergência
Amihan Brennand de Oliveira
Enfermeira — Educação em Saúde
Ninguém espera precisar agir em uma emergência. Mas, nos primeiros minutos após um acidente ou mal súbito, o que as pessoas ao redor fazem é fundamental.
Primeiros socorros são cuidados imediatos prestados a uma vítima com o objetivo de manter suas funções vitais e impedir a piora do quadro. Não exigem equipamentos sofisticados, mas sim calma e informação. Por isso, é importante saber diferenciar atitudes que ajudam daquelas que podem agravar a situação.
Queimaduras: o que todo mundo ainda faz errado
Separar mitos e verdades é um ótimo ponto de partida. Manteiga, pasta de dente, café e clara de ovo são substâncias que ainda aparecem como "remédio caseiro" em muitas casas, mas são mitos que pioram a lesão. Além de não resfriar o tecido, criam uma camada que retém calor e aumenta muito o risco de infecção.
O ideal é lavar a área queimada com água corrente fria por pelo menos dez minutos. Não use gelo, pois a temperatura extrema pode agravar o dano ao tecido. Depois, cobrir com gaze estéril ou um pano limpo e buscar atendimento médico conforme a extensão e profundidade da queimadura.
Um ponto importante: não estoure bolhas. Elas formam uma barreira natural de proteção contra infecção. Ao rompê-las, você elimina essa proteção e expõe o tecido lesionado.
Em queimaduras extensas, que cobrem áreas grandes do corpo, ou em queimaduras no rosto, mãos, pés ou genitais, acione o SAMU imediatamente (192). Essas regiões exigem avaliação especializada mesmo quando a queimadura parece superficial.
Hemorragias: o pó de café não para o sangramento e causa infecção
Em situações de sangramento intenso, especialmente após acidentes, a primeira coisa a fazer é acionar o serviço de urgência. Feito isso, aplique pressão direta no local com gaze ou pano limpo e mantenha. Não tire para ver se parou. Cada vez que você remove a compressa, interrompe o processo de coagulação que está se formando.
Pó de café, teia de aranha e farinhas, ainda usados por muita gente, não têm nenhuma eficácia comprovada para estancar sangramento e aumentam consideravelmente o risco de infecção. A compressão direta e contínua é o recurso mais eficaz disponível até a chegada do socorro.
Em casos de fratura exposta com hemorragia, a situação exige ainda mais cautela. Não tente reposicionar o osso, não aplique torniquetes improvisados e não movimente o paciente. Imobilize o local da forma como está, faça compressão ao redor da ferida, não sobre o osso exposto, e aguarde o SAMU. Mover o paciente incorretamente pode gerar danos neurológicos e vasculares irreversíveis.
Mantenha a vítima calma e deitada. Conversar com ela, explicar o que está acontecendo e dizer que o socorro está a caminho ajuda a reduzir o pânico, já que o pânico acelera a frequência cardíaca, o que aumenta o sangramento.
Engasgo: bater nas costas pode não ser suficiente
Situações de engasgo estão entre as emergências que mais ocorrem no cotidiano. A reação instintiva de bater nas costas da pessoa ou oferecer líquidos pode, em alguns casos, piorar a obstrução ou empurrar o objeto para mais fundo na via aérea.
O primeiro passo é avaliar o nível de obstrução. Se a pessoa consegue tossir, falar ou respirar, mesmo com dificuldade, incentive a tosse forte e contínua. A tosse é o mecanismo mais eficaz que o próprio corpo tem para expelir corpos estranhos. Não interfira se ela estiver tossindo com força.
Se a pessoa não consegue tossir, falar ou respirar, a obstrução é total e exige ação imediata. Em adultos e crianças acima de um ano, aplique a manobra de Heimlich: posicione-se atrás da vítima, coloque um punho fechado logo acima do umbigo e abaixo do esterno, cubra com a outra mão e faça compressões para dentro e para cima, em movimentos rápidos e firmes. Repita até o objeto ser expelido ou até a chegada do socorro.
Em bebês com menos de um ano, a técnica é diferente e mais delicada: cinco tapas interescapulares (nas costas, entre as escápulas) com a base da mão, alternados com cinco compressões torácicas com dois dedos no centro do peito. Nunca tente retirar o objeto manualmente se não conseguir vê-lo claramente, pois você pode empurrá-lo ainda mais fundo.
Importante: as técnicas de desobstrução em bebês e crianças pequenas foram atualizadas recentemente pelas principais diretrizes internacionais de ressuscitação. Por isso, é fundamental buscar cursos presenciais atualizados oferecidos pelo SAMU, Corpo de Bombeiros ou instituições certificadas, que já ensinam o protocolo mais recente.
A manobra de Heimlich pode e deve ser aprendida com antecedência. O SAMU e diversas instituições de saúde oferecem cursos gratuitos. O Ministério da Saúde (@MinSaudeBR) disponibiliza tutoriais rápidos em vídeo ensinando a técnica exata para <a href="https://www.youtube.com/watch?v=PyMq2iDMEkI" target="_blank" style="color: #2D6A4F; font-weight: bold; text-decoration: underline;">adultos engasgados</a>. Vale muito a pena assistir.
Desmaio: água na cara não funciona e é coisa de novela
Desmaios podem acontecer por diversas razões, como calor excessivo, hipoglicemia, queda brusca de pressão ou emoção intensa. O que não vai adiantar é jogar líquidos no rosto da pessoa (isso é coisa de novela haha). Além de ineficaz, pode assustar e gerar movimentos bruscos em alguém que acabou de cair.
O primeiro passo é garantir a segurança da vítima: evite que ela se machuque ao cair e afaste objetos ao redor. Peça que alguém próximo acione o serviço de urgência enquanto você avalia: a pessoa tem pulsação? Está respirando?
Se sim, ela apenas desmaiou e tende a recuperar a consciência em poucos minutos. Deite-a de costas, eleve levemente as pernas (isso favorece o retorno do sangue ao cérebro), afrouxe roupas apertadas e mantenha o ambiente ventilado. Não ofereça comida ou água enquanto ela ainda estiver inconsciente.
Se não houver pulsação nem respiração, a situação é outra: inicie as compressões torácicas imediatamente. Posicione as mãos sobrepostas no centro do peito, braços estendidos, e comprima forte e rápido, com cerca de 100 a 120 compressões por minuto, na profundidade de pelo menos 5 centímetros. Se você tiver treinamento em reanimação cardiopulmonar, associe as ventilações. Se não tiver, mantenha as compressões sem parar até o socorro chegar.
Reanimação cardiopulmonar é uma habilidade que qualquer pessoa pode aprender e que pode fazer toda a diferença. O SAMU disponibiliza treinamentos, e há bons recursos online com instrutores qualificados.
Atitudes que salvam vidas
A educação em saúde voltada para os primeiros socorros é de extrema importância e deve fazer parte do conhecimento de toda a população. O SAMU, o Corpo de Bombeiros e diversas instituições de saúde oferecem cursos rápidos e muitas vezes gratuitos de primeiros socorros e reanimação cardiopulmonar.
Primeiros socorros não são apenas técnicas: são atitudes. E quanto mais pessoas souberem agir corretamente, mais vidas poderão ser salvas.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Noções de primeiros socorros. Brasília: Ministério da Saúde, 2003.
BRASIL. Fundação Oswaldo Cruz. Manual de primeiros socorros. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2003.
Sobre o autor
Amihan Brennand de Oliveira
Enfermeira — Educação em Saúde
Enfermeira formada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), atualmente atuando em unidade de terapia intensiva (UTI). Desenvolveu interesse pela área de educação em saúde a partir da experiência profissional na assistência, utilizando temas como primeiros socorros como forma de incentivo ao conhecimento, prevenção e cuidado em situações de emergência.
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